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V Jornadas Cinema em Português
Cinema em Portugues 2012

22 a 25 de Outubro de 2012
  22 Segunda 23 Terça 24 Quarta 25 Quinta
9h00

às

12h30

[Anfiteatro da Parada]

Abertura

Pelo Presidente da Faculdade de Artes e Letras, PROF. DOUTOR PAULO SERRA

Patrícia Castello Branco - Sensações ou sentimentos? em "A Dança dos Paroxismos" [resumo]

(intervalo para café)

José António Domingues - O facto espectatorial [resumo]

Debate Moderado por: Ana Catarina Pereira

[Anfiteatro da Parada]

Ana Catarina Pereira - Mulheres por detrás das câmaras no cinema português [resumo]

Eduardo Paz Barroso - Relações entre cinema e literatura na obra de Fernando Lopes [resumo]

(intervalo para café)

Rita Bastos - Belarmino e Mauro: a personagem (des)construída na representação da cidade [resumo]

Debate Moderado por: Luís Nogueira

Congresso Portugal – Brasil – África

12.00h – Kamila Krakowska (FLUC), «As viagens pós‐coloniais de Macunaíma»

Congresso Portugal – Brasil – África

 
14h00

às

18h00

[Anfiteatro da Parada]

Marta Aparecida Gonçalves - A inventividade como necessidade no cinema africano [resumo]

Alessandra Zulianini - A construção dialógica de "Non ou a vã glória de mandar" [resumo]

(intervalo para café)

Mauro Araújo - Notas sobre o épico de Glauber Rocha: "Antônio das Mortes" e "Idade da Terra" [resumo]

Debate Moderado por: Patrícia Silveirinha Castello Branco

[Anfiteatro da Parada]

Isabel Macedo - Contribuições do documentário para a (re)construção da memória sócio histórica: uma análise dos filmes produzidos em Portugal entre 2007 e 2011 [resumo]

Paulo Cunha - Genealogias, filiações e afinidades do cinema português [resumo]

(intervalo para café)

Luiza Luíndia - Documentário (des)construtivista indígena: Brasil [resumo]

Debate Moderado por: Vasco Diogo

[Anfiteatro das Sessões Solenes]

14h às 18h - Masterclass com o Realizador Português, José Filipe Costa, e exibição do filme "Linha Vermelha" (2011) [perfil]

 

Congresso Portugal – Brasil – África
[Anfiteatro da Parada]

15h50 - Marcelo Carvalho (UFRJ), África em transe: propostas glauberianas para a diáspora africana»

16h05 – Silvana Oliveira (UFMG), «Ler o filme, ver o livro: Sobre o lado esquerdo, de Margarida Gil e Carlos de Oliveira»

[Auditório da Biblioteca Central]

15h20 – Tainah Souza (USP), «A Memória recriada e a História provocada em Sans soleil (1982), de Chris Marker»

15h50 – Maria do Carmo Piçarra (UNL), «Politização do cinema na "terra do sol" (ou uma proposta de genealogia das imagens obliteradas do quotidiano)»

17h00 – Alberto da Silva (Univ. de Rennes), «Política, poder e gênero nos filmes realizados pelas mulheres dos anos da ditadura brasileira»

Congresso Portugal – Brasil – África

 
21h00

[Anfiteatro da Parada]

Exibição do Filme "A promessa" (1973) de António de Macedo, com leitura de texto original da autoria do realizador

[Anfiteatro da Parada]

Exibição do Filme "Budapeste" (2009) de Walter Carvalho

[Anfiteatro da Parada]

Exibição do Filme "A costa dos murmúrios" (2004) de Margarida Cardoso, com a presença da realizadora

[Anfiteatro da Parada]

Exibição do Filme "Natal 71" (1999) de Margarida Cardoso, com a presença da realizadora

Resumos

Alessandra Zuliani - Fundação Calouste Gulbekian/Università del Salento - Lecce, Itália

A construção dialógica de "Non Ou a Vã Glória de Mandar": Análise de uma conversação entre um professor e os seus discípulos no cenário da guerra colonial.

Palavras-chave: cinema português, Manoel de Oliveira, análise da conversação, texto fílmico, estudos inter-artes

Abstract: Esta contribuição insere-se no âmbito dos nossos estudos sobre o texto fílmico de Manoel de Oliveira e os resultados da legendagem italiana dos diálogos originais. Trata-se de um projeto de investigação que vai abordar uma nova perspetiva no âmbito dos estudos sobre o cineasta português, pois insere-se na área científica da tradução audiovisual e envolve muitas outras áreas científicas: a análise da conversação, a sociolinguística, o cinema e a literatura portuguesa, com referência à relação entre o cinema de Manoel de Oliveira e as obras que o realizador adaptou nos seus filmes.

Queremos, nesta ocasião, refletir sobre os diálogos de "Non Ou a Vã Glória de Mandar" (1990) na versão original, partindo da função que os personagens principais desempenham no texto fílmico. O realizador baseia a estratégia fabular no uso da alegoria histórica e, como nos diálogos filosóficos clássicos, cada personagem expressa um ponto de vista sobre a guerra colonial e a história de Portugal. As diferentes posições dos furriéis frente à empresa em África exemplificam a fragmentação do povo português frente ao processo de colonização. O alferes Cabrita (Luís Miguel Cintra) é o personagem central do filme, o portador de um discurso que deve ser atribuído ao próprio realizador sobre as derrotas de Portugal, sobre a função da história e a importância do conhecimento do passado coletivo. Os soldados (furriéis e cabos), através das suas perguntas e observações, permitem o desenvolvimento do discurso do alferes, que conversa com eles como um professor com os seus alunos (de facto, ele nunca é chamado pelo nome próprio, mas apenas pelo seu designativo militar). Iremos, portanto, analisar a interação verbal entre os personagens nos momentos mais significativos da conversação. No âmbito dos nossos estudos sobre o diálogo fílmico de Manoel de Oliveira, o argumento deste filme representa um caso muito interessante e único, pois trata-se de um texto que não é adaptação de uma obra literária; os diálogos são inteiramente escritos pelo realizador (que pediu a colaboração do amigo P. João Francisco Marques para os textos históricos). Através da análise do diálogo fílmico, o nosso propósito é dar voz a um Manoel de Oliveira escritor, a um realizador que sempre esteve fascinado pela escrita e que se dedica aos seus guiões até ao ínfimo pormenor.


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Ana Catarina Pereira – Labcom/Universidade da Beira Interior

Mulheres por detrás das câmaras: a ficção de longa-metragem, mediada por um olhar feminino

Palavras-chave: realizadora, percentagem, cinema feminino, identificação

Abstract: Falar de cinema português no feminino é analisar uma breve mas interessante história das mulheres que inverteram os tradicionais papéis de "atriz filmada por um realizador", assumindo, elas próprias, o comando do olhar por detrás das câmaras. Desde o aparecimento do cinema até ao final da primeira década do século XX, 40 ficções de longa-metragem foram dirigidas por mulheres, em Portugal. A primeira delas data de 1946, tendo estreado a 30 de agosto no Cine Ginásio, em Lisboa. "Três dias sem Deus", de Bárbara Virgínia, é uma adaptação da obra original de Gentil Marques, "Mundo Perdido", que chegou a ser apresentada no I Festival de Cannes, a 5 de outubro de 1946. Este seria, no entanto, o primeiro e único filme realizado por uma mulher durante o período ditatorial do Estado Novo (1932-1974). A segunda longa-metragem de ficção ("Trás-os-Montes") data já de 1976 e é uma correalização de Margarida Cordeiro e de António Reis. Para além destas, até ao final de 2009 seriam realizadas mais 38 longas-metragens. A primeira década forte, em termos de produção, seria a de 80, quando se destacam os nomes de Monique Rutler, Solveig Nordlund e Margarida Gil. Nos anos seguintes surgem os primeiros filmes de Teresa Villaverde e, mais tarde, de Catarina Ruivo, Cláudia Tomaz e Raquel Freire, entre outras realizadoras dedicadas à ficção. O propósito desta apresentação será identificar a evolução do número de mulheres cineastas no cinema português e as temáticas abordadas nos seus filmes, procurando responder à questão: "De que falamos quando falamos de cinema português no feminino?"

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Eduardo Paz Barroso – FCHS/Universidade Fernando Pessoa e Labcom/UBI

Relações entre cinema e literatura na obra de Fernando Lopes

Palavras-chave: "Abelha na Chuva", "Delfim", adaptação

Abstract: Este ensaio abordará alguns aspetos da relação entre cinema e literatura na obra de Fernando Lopes: em que medida alguns dos filmes do realizador filmam a literatura como objeto, em vez de se limitarem a uma adaptação de romances. Ou então como funciona a ideia de tradução visual a partir de um código literário e romanesco assente numa "biblioteca pessoal". A fixação do realizador em romances de Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires ou António Tabucchi remete para uma teia de cumplicidades estéticas que perspetivam novas relações entre o cinema e a vida, quer no contexto do Cinema Novo Português, quer também na maturação de uma filmografia que se ocupou de forma original das coincidências e divergências entre a existência e o visível, entre o enquadramento e a montagem. Trata-se também de um contributo para a evocação de Fernando Lopes, assumindo que o seu desaparecimento convida a um recuo face a uma geração de cineastas cujo legado ainda se encontra, em muitos aspetos, verdadeiramente por estudar.

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Isabel Macedo - Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade/Universidade do Minho

Contribuições do documentário para a (re)construção da memória sócio histórica: uma análise dos filmes produzidos em Portugal entre 2007 e 2011

Palavras-chave: Documentário, memória, identidades

Abstract: O cinema produzido em Portugal está profundamente relacionado com o contexto histórico, político e social vivenciado ao longo das últimas décadas. Enquanto nas décadas de 70 a 80 o cinema português parece discutir essencialmente a questão nacional, espelhando o imaginário do que era ser português nas produções audiovisuais - eg. "Trás-os-Montes" (António Reis e Margarida Cordeiro: 1976); "Um adeus Português" (João Botelho: 1985), a partir da década de 90, multiplicam-se o número de filmes que começam a discutir temas relacionados com a realidade social, nomeadamente sobre as questões da pobreza, da imigração, do passado colonial, entre outras - e.g. "As Duas Faces da Guerra (Diana Andringa e Flora Gomes: 2007); "América (João Nuno Pinto: 2010); Tabu (Miguel Gomes: 2011). Observa-se ainda uma evolução, no panorama cinematográfico português, do número de documentários produzidos. Este género interessa-nos especialmente por considerarmos que está intimamente relacionado com a memória histórica. Nos documentários analisados, que serão apresentados nesta comunicação, reconstroem-se narrativas do passado, levando-nos a repensar as nossas perceções sobre os acontecimentos da história recente, pela apresentação de uma visão própria da realidade. Além disso, estimulam-nos a pensar sobre o nosso lugar nos significados dos filmes e na nossa responsabilidade para com o passado e para com as interpretações que fazemos do mesmo.

Se assumirmos o documentário como um espaço onde existe e deverá existir sempre a possibilidade de construção de significados a partir das imagens e dos sons do mundo que nos rodeia (Penafria, 1998), torna-se pertinente analisar que imagens e significados têm sido veiculados pelo documentário produzido em Portugal. Os resultados do trabalho desenvolvido indicam que, no nosso período de análise (2007/2011), o cinema de não ficção tem revelado uma evolução significativa, aproximando-se, no que se refere à quantidade de filmes produzidos, do cinema de ficção. Interessa-nos perceber esta realidade, procurando analisar os significados veiculados pelos documentários, desconstruindo os processos que envolvem a sua produção. Por consideramos que o cinema é um meio privilegiado que nos permite pensar sobre a sociedade e o modo como representamos o mundo, apresentamos nesta comunicação uma caracterização geral dos documentários produzidos em Portugal entre 2007 e 2011, bem como uma análise de teor qualitativo de um conjunto de documentários, cujas temáticas incidem sobre questões identitárias, trajetórias migratórias e memórias autobiográficas.

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José António Domingues - Universidade da Beira Interior

O facto espectatorial: Apresentação da noção de espectador de cinema em Souriau, Schefer e Morin.

Palavras-chave: Universo fílmico, facto espectatorial, experiência subjetiva.

Abstract: O espectactorial é um facto extremamente significativo no âmbito dos estudos fílmicos (Judith Mayne, Cinema and Spectatorship, 1993, Michele Aron, Spectatorship – the power of looking on, 2007). Está ligado de modo muito forte a uma experiência eminentemente individual, psicológica, estética, numa palavra, subjetiva (Jacques Aumont, «Le film et son spectateur» [cap.5 de L'esthétique du film, 2008: 159]). Para Étienne Souriau, o facto espectatorial é um nível de um universo fílmico. Trata-se de um nível que concerne os factos mentais pelos quais o sujeito entende o universo da diegeses, de acordo com os fenómenos que são projetados no ecrã. É no estudo «La structure de l'univers filmique et le vocabulaire de la filmologie» [Publicação na Révue Internationale de Filmologie, 1950-51, pp.231-240] que o autor distingue o facto espectatorial entre os diversos níveis da estrutura fílmica. A distinção permite, desde logo, uma primeira instauração do nome. Em Edgar Morin, a espectatorialidade apresenta-se-nos como um desejo de identificação do espectador de cinema com um mundo imaginário. A imagem do filme elabora, nesta perspetiva, uma visão de um mundo invisível e ao mesmo tempo presente. Com esta visão, o sujeito espectador estabelece uma relação com uma existência humana determinada - é esta relação, no que ela implica de incorporação do espectador no filme, que propõe Edgar Morin em Le cinéma ou l'homme imaginaire (1958). A noção de espectatorialidade desenvolvida por Jean-Louis Schéfer, em L'homme ordinaire du cinéma (2000), pertence a uma configuração de análise diferente. A relação do espectador com o filme é, com este autor, reportada às imagens, ao poder que as imagens têm de produzir e destruir campos de significação e memória. Liga o cinema a uma experiência da imagem – do mundo e do movimento das imagens (Idem, Du monde et du mouvement des images, 1997) nasce a condição do espectador.

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Luiza Azevedo Luíndia - Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)/Universidade do Algarve

Documentário (Des) construtivista indígena: Brasil

Palavras-chave: documentário, desconstrutivismo, indígena, Brasil

Abstract: O artigo reflete sobre as atuais tendências do documentário (des)construtivista das videografias indígenas tendo como recorte as experiências do Brasil . Para tanto, se utilizou de pesquisa bibliográfica, estudo de caso e análises fílmicas. No cinema, conforme Azevedo Luíndia e Oliveira (2011), a imagem do indígena ainda se configura de representações estereotipadas e destituídas de historicidade, cristalizando-se mensagens do "olhar ou da reinvenção do outro" em sua grande maioria. Em que pese um olhar ainda dominante da sociedade nacional através de representar os grupos indígenas ora como selvagens e exóticos, ora como guardiões da floresta e sujeitos autodeterminados, algumas mudanças gradualmente buscam um cinema indígena autoconstruído. Tais postulações intentam subverter a ordem dominante de dois fatores predominantes: dissolução das fronteiras entre os géneros cinematográficos, seja documentário e ficção, e distintas compreensões da realidade e verdade como construções simbólicas cujo objetivo maior é, em ultima instância, impor um significado unívoco sobre as realidades culturais, permitindo, assim, legitimar um determinado discurso de visões distorcidas. O cine desconstrutivista se remete a favor das videografias através da produção autóctone como a única forma válida de representação – ou seja, a auto-representação -, e também, como via de contestação e de reivindicação política dos "grupos subalternos", se incluindo os indígenas. O termo "grupos subalternos" se alinha com a visão dos grupos excluídos das sociedades devido a sua raça, etnia, classe social, género, orientação sexual ou religião. Através da corrente (des)construtivista, o cinema cria seu próprio referente que não se encontra na realidade externa, contudo na subjetividade do produtor e do espectador em uma criação compartida de significados para ambos, mas principalmente para os "filmados". Nesse processo procura se afastar dos olhares antropocêntricos e etnocêntricos do poder e, também, do cinema verdade por seu intento de não poder conjugar a observação impessoal com a participação pessoal, salvando e resolvendo todos os problemas desse planeta ao garantir a presença do autor e sua honestidade ao mostrar "o que viu e "como viu" (PIERA, 1996). Enfatiza-se que nesse processo o filme de ficção e o documentário indígena passam a trabalhar com suas próprias vozes de acordo com Stam (2003, p. 305) para quem a arte é uma representação não tanto em um sentido mimético quanto político, de delegação da voz. Os grupos indígenas considerados grupos historicamente marginalizados passam agora ter controlo sobre sua representação, antes demarcada por olhares etnocêntricos e eurocentristas datados desde a carta de Pero Vaz de Caminha. "O bom selvagem" já não aceita essa representação advinda do Romantismo europeu quando o idealizou e procurou "civilizá-lo". Assim, mais recentemente a luta pela representação tem correspondência com as reivindicações na esfera política e também, na territorialização dos recursos naturais e culturais. Desse modo, esses novos processos de divulgar suas imagens auto-representadas implicam na questão da voz do documentário e, então, supõem pensar na forma como o Outro se vê representado e como o poder da fala se configura um significativo mecanismo de poder e de reprodução de estereótipos e visões. A voz-over, que não só interpretava como ainda produzia sua verdade cede lugar à voz autoral. A voz-over dos que representam os indígenas através de estereótipos dão vez às vozes compartilhadas e às videografias atuais, compondo um cenário de disputa e de auto-representação. Agora os "sujeitados" se transformam em "sujeitos".

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Marta Aparecida Gonçalves - Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

A Inventividade como necessidade no Cinema Africano

Palavras-chave: igualdade, Flora Gomes, filmografia africana, política, tabu.

Abstract: Este estudo analisa alguns aspetos do filme longa-metragem "Nha Fala", do cineasta guineense Flora Gomes, observando os recursos estético-filosóficos-discursivos utilizados e as confluências com algumas teorias pós-colonialistas, buscando mostrar a opção por uma produção de liberdade e de reação existencial que se firmará na busca de uma linguagem poeticamente contra-ideológica.

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Mauro Luciano Araújo - Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

Notas sobre o épico de Glauber Rocha: "Antônio das Mortes" e "Idade da Terra"

Palavras-chave: género, épico, Cinema Novo, cânon

Abstract: O épico, em Glauber, foi remontado à sua maneira, ganhando tonalidades bem particulares de características modernas. A saber, mais irónica, fragmentada, descontínua e violenta; mais crítica que elegíaca - e por essa razão o elemento primitivista parece assumir carácter civilizatório no contexto dependente cultural e económico. A diferença, a ser buscada na comunicação que se projeta aqui, é a da revitalização de teores regionalistas e populares propostos pelo cineasta, remontados à altura da arte religiosa do medievo, numa avaliação híbrida da cultura importada pela própria imageria do cinema norte-americano em sociedades aquém do know how tecnológico – como se configura a geopolítica do Norte-Nordeste brasileiro e sua receção e relação com culturas exteriores. Glauber, na comum influência do cinema europeu engajado de sua época, faz a leitura do épico didático de Bertolt Brecht. Nele se inscrevem figuras alegóricas, o efeito de distanciamento e estranhamento, além da proposta política do dispositivo criado pela mise en scène. No entanto, o cineasta extrapola na liberdade artística, fragmentando a linha condutiva da personagem heroica, e elabora, na distensão do chamado primitivismo moderno, um tipo épico crítico ao cânon secular, chegando a pontuar com sua liberdade criativa a persistência cristã na compreensão do campo literário. A crítica se percebe em dois filmes específicos de sua carreira, citados em nosso trabalho: "Antônio das mortes" e "A idade da Terra".

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Paulo Cunha - Centro de Estudos Interdisciplinares do Séc. XX (CEIS20)/Universidade de Coimbra

Genealogias, filiações e afinidades no cinema português: Do novo cinema ao cinema português contemporâneo

Palavras-chave: Novo Cinema português, cinema português contemporâneo, história do cinema português, escola portuguesa

Abstract: A generalidade das interpretações da história e estética do cinema português tem tentado construir, ao longo das décadas, uma visão unitária, consanguínea, hereditária e romântica. Em última análise, esta pretende apenas considerar um conjunto de obras que encaixam na ideia de cinema português – ideia esta que se tem instituído e que, fatalmente, ignora ou deprecia um corpus fílmico significativo também rodado em Portugal, concretizado por técnicos portugueses e falados em língua portuguesa. Conceitos estabelecidos, e institucionalizados, como "cinema novo" e "escola portuguesa" dão uma visão muito redutora e uniformizada do cinema português - que interessa hoje reavaliar e reconfigurar, à luz de novas investigações desenvolvidas de forma consistente nos últimos anos.

No entanto, é evidente e inegável que, tal como acontece noutras cinematografias, existem autores no cinema português que influenciam ou inspiram colegas etariamente mais jovens da mesma nacionalidade. De forma mais ou menos consciente ou visível, existem ausências e presenças – linhas temáticas, referências estéticas, métodos produtivos – que se vão reproduzindo ou replicando no cinema português de geração em geração. O objetivo desta apresentação será identificar alguns casos de realizadores da nova geração que foram influenciados por outras gerações do cinema português e onde se reconhecem, nos filmes e nos discursos, um conjunto de referências comuns. A partir desses casos, tentarei discutir, arqueologicamente, os processos de construção de dois desses momentos unitários: "cinema novo" e "escola portuguesa".

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Patrícia Silveirinha Castello Branco - Universidade da Beira Interior/Universidade Nova de Lisboa

Sensações ou sentimentos? em "A Dança dos Paroxismos": A atualidade do primeiro filme experimental português

Palavras-chave: Cinema experimental, sensações, vanguarda, corpo

Abstract: Esta comunicação pretende revisitar o filme "A Dança dos Paroxismos" (Jorge Brum do Canto: 1929) investigando as continuidades e as ruturas que o filme estabelece com as propostas estéticas europeias da mesma época, à luz da ideia de "cinema como sensação". Pretende-se analisar esta obra de Brum do Canto, procurando as relações que o filme estabelece com a conceção de cinema como ritmo e movimento, típica das vanguardas artísticas francesas e alemães da década de 20. Propomo-nos destacar as semelhanças com as propostas do "cinema puro", "cinema dada" e do "cinema absoluto" mas, sobretudo, procurar a especificidade da obra portuguesa no desenvolvimento da "estética das sensações" para a qual nos remete o próprio título da obra. O objetivo principal da comunicação será o de estabelecer as principais linhas que informam o primeiro filme verdadeiramente experimental do cinema português, nas suas semelhanças e diferenças com os seus congéneres europeus e na sua atualidade particular.

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Rita Bastos – Labcom/Universidade da Beira Interior

Belarmino e Mauro: A personagem (des)construída na representação da cidade

Palavras-chave: Representação da cidade, identidade, personagem

Abstract: Belarmino e Mauro, dois protagonistas, dois realizadores (Fernando Lopes e João Salaviza), uma longa-metragem de 1964 e uma curta-metragem de 2009, o centro e a periferia da cidade, "Belarmino" e "Arena". Nesta comunicação pretende-se analisar a representação da cidade nestas duas obras, explorando a ideia de cidade como o alter-ego da personagem, a personagem como janela para a cidade. Tendo como ponto de partida a obra "Belarmino", pretende-se explorar de que forma a representação da cidade constrói a própria personagem, apresentando-se como uma extensão do seu pensamento. Belarmino Fragoso campeão nacional de pugilismo, mas também engraxador, humilde e marginal, surge desconstruído em vários espaços da cidade de Lisboa, sendo obrigatório ao espectador seguir a sua deambulação pelos sucessivos espaços para que se entenda o mundo interior desta personagem. Em "Arena", Mauro vive em prisão domiciliária no Bairro da Flamenga, Chelas. Em situação marginal, esta personagem constrói-se na desintegração do próprio espaço. A ideia de rutura, transversal à personagem e ao espaço que esta habita, serve de ligação entre as duas obras que aqui se apresentam.

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José Filipe Costa - Doutorado pelo Royal College of Art, Londres. O seu doutoramento tem como caso de estudo o filme "Torre Bela", (1977), de Thomas Harlan. É professor no IADE e investigador colaborador da UNIDCOM/IADE. Realizou e escreveu as curtas metragens "A Rua" (2008), "Chapa 23" (2006), "Domingo" (2006) e "Undo" (2004) e os documentários "Senhorinha" (1999), "Entre Muros" (2002) e "Linha Vermelha" (2011). Foi argumentista, realizador e coordenador da série de divulgação cientifica "Histórias da Vida na Terra" (2008). Foi crítico no jornal "Independente", fez parte do conselho redatorial da revista "Docs.pt" e publicou o livro "O cinema ao poder!" (2002). Em 2005 completou o curso de realização de cinema no programa de Criação e Criatividade Artística da Fundação Calouste Gulbenkian, em colaboração com a London Film School. Licenciou-se e fez mestrado em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

O processo faz o filme

Abstract: Dois processos para dois filmes destinados a dois contextos distintos: "Chapa 23" (2006), um vídeo de curta duração encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian e "Linha Vermelha" (2011) - uma revisitação de "Torre Bela" (1977), de Thomas Harlan - exibido em três salas do circuito comercial e cerca de 40 outros locais (cineclubes, auditórios municipais, universidades, etc). Serão discutidas a fase de pesquisa de ambos os projectos, a procura e fixação de um ponto de vista e o modo como o processo de filmagem e montagem foram determinando as formas finais dos filmes. Além disto, uma outra questão em foco: como pode um filme responder às interpelações da vida em comunidade e da memória?

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