Contactos
Jornadas
Base de Dados
Apresentação
II Jornadas Cinema em Português

13 e 14 de Outubro de 2009
 Terça [13]  
14h30 Abertura das Jornadas com o convidado Tiago Baptista – Depois do cinema português: cinema pós-nacional, cinema europeu e cinema "do mundo" 
15h30 Mauro Araújo - Macunaíma - herói entre máquinas e imagens pós-modernas [resumo]
16h15 Célia Cavalheiro - Na ante-sala de "Vale Abraão", de Manoel de Oliveira [resumo]
17h00 Susana Viegas - 'Vai e Vem' e a reversibilidade do olhar no cinema [resumo]
   
   
 Quarta [14]  
14h30 Leonor Areal - Um neo-realismo singular: o cinema de Manuel Guimarães [resumo]
15h15 Paulo Cunha - Radicalismo e experimentalismo no Novo Cinema Português 1967-1974 [resumo]
16h00 António Valente - A invisibilidade do cinema português produzido sem apoio estatal [resumo]
16h45 Daniel Ribas - Nova Geração? a geração curtas chega às longas [resumo]
17h30 Ana Soares - O cinema de Pedro Sena Nunes [resumo]
   
   
   
   
Resumos
Mauro Araújo - Macunaíma - herói entre máquinas e imagens pós-modernas

Palavras chave: ironia, modernização, cultura popular, Cinema Novo

Abstract: Macunaíma inicia sua vida na Amazônia, floresta ainda entre encantamentos e mitos, lendas populares e indígenas, longe do tempo e espaço, ritmo moderno. O verde da floresta foi chamado de Inferno, por parte da Europa, e de Paraíso, por outros conquistadores anacrônicos. Este ambiente, na década de 60, serviu de refúgio para dar subsídio à carnavalização do Tropicalismo, com a rica arte de intervenção de Hélio Oiticica, à prática de filmes alegóricos numa era de forte ditadura no Brasil. Também como ambiente musical – a canção identificada como tropicalista. 

A análise proposta do filme de Joaquim Pedro de Andrade de 1969 tem como foco a maneira como se dá a relação entre os personagens heróicos na alçada paródica do picaresco e a era em filmes do cinema (última fase do Cinema Novo e em grande parte do Cinema Marginal) – o herói sob ironia na mistura entre o ambiente arcaico mítico e o moderno desencantado. O típico anti-herói malandro e o universo que o circunda no quadro, janela audiovisual brasileira, é também o flâneur, o dandy, o nômade – observador das grandes construções modernas, e imensas arquiteturas pós-modernas. Macunaíma é também, segundo a análise de Gilda de Melo e Souza, um dos últimos representantes na literatura do romance de cavalaria. Seguindo a trilha aberta pela paródia de Cervantes, em Dom Quixote, o chamado “herói sem caráter” brasileiro volta em fins da década de 60 no filme do movimento Cinema Novo sob outra máscara, e nas mais variadas personalidades e performances sociais – da Chanchada desinteressada e brincalhona à alegoria de um segmento popular explorado pelas elites do país. O herói marginal, agora beirando o pós-modernismo, subverte o pícaro na malandragem e carrega em sua sátira carnavalesca o peso da sociedade de consumo e da áurea pop. No caminho entre o mundo antigo e o mundo do progresso fetichizado pop, sob a esfera da expressão da cultura popular própria de uma antropofagia modernista de vanguarda. A proposta do trabalho é, enfim, verificar alguns apontamentos críticos desse heroísmo ironizado e marginal, num ethos pós-moderno, e as congruências entre a literatura paródica do modernista Mário de Andrade e do Cinema Novo – cinema moderno brasileiro. 

[topo]
Célia Cavalheiro - Na ante-sala de "Vale Abraão", de Manoel de Oliveira

Palavras-chave: Madame Bovary; existencialismo; cinema-literatura; identidade-negação.

Abstract: Na  interpretação cinematográfica empregada por Manoel de Oliveira (com roteiro de Agustina Bessa-Luís) , a personagem de Flaubert é mostrada numa contínua negação de sua identidade. Através desta atitude explícita, cria-se a possibilidade de uma visão diferenciada da personagem que tece, a cada cena, a necessidade de sua própria ausência, sendo a única via para sua  re-criação. A personagem traça,  desta maneira,  uma resistência extemporânea a qualquer contexto (tanto do romance quanto da adaptação seguida pelo cineasta) para materializar a busca eterna da compreensão do homem de sua existência. 

[topo]
Susana Viegas - 'Vai e Vem' e a reversibilidade do olhar no cinema

Palavras-chave: João César Monteiro, Vai e Vem, Merleau-Ponty, reversibilidade

Abstract: Nesta apresentação pretendo destacar a questão da reversibilidade do olhar no filme 'Vai e Vem' (2003), de João César Monteiro, com a propósito de, a partir dos textos de Merleau-Ponty, analisar detalhadamente as possibilidades e consequências filosóficas do plano do rosto e do olhar tal como é visível nesse filme. Normalmente, relacionamos a filosofia da arte de Merleau-Ponty com os escritos sobre a pintura de Cézanne mas, nesta apresentação, pretendo destacar os textos dedicados ao cinema. Assim, tomando o cinema como um caso exemplar, podemos aproximar o olhar directo no cinema e o espectador no fenómeno de reversibilidade do olhar. Através do cinema, é possível analisar, simultaneamente, o processo de tornar-se visível para o outro e de tornar visível essa relação, ou seja, é possível revelar o processo pelo qual o olhar do espectador que vê é reenviado a si como visível. Isto é, perante o plano pormenor de um olhar, o espectador compreende-se como alguém que vê e que é visível, revelando o próprio processo de ser espectador. Fenómeno que oscila entre o âmbito estético e o âmbito ético, a reversibilidade do olhar cinematográfico expõe o paradoxo da ambiguidade entre ver e ser visível e da visibilidade do invisível. Deste modo, o filme de João César Monteiro será considerado como um exemplo concreto deste fenómeno singular. Procurarei nele elementos que ajudem à compreensão deste processo filosófico e cinematográfico, nomeadamente o plano do olhar directo de João Vuvu/João César Monteiro.

[topo]
Leonor Areal - Um neo-realismo singular: o cinema de Manuel Guimarães 

Palavras-chave: neo-realismo, cinema português, Manuel Guimarães

Abstract: No período do Estado Novo, coexistiram na produção cinematográfica portuguesa duas tendências bastante distintas: por um lado, um cinema conformista, oficioso, comercial; por outro lado, um cinema de resistência: o neo-realismo de Manuel Guimarães, surgido nos anos 50, e depois toda a geração do Novo Cinema, nos anos 60. Todo este cinema sofreu as consequências de um clima de abafamento e restrição decorrente da censura oficial e social. Os mais pequenos atrevimentos eram censurados, o que naturalmente alimentava a precaução timorata de realizadores e produtores, remetendo-os a um silêncio prudente. A auto-censura tornou-se o mecanismo de criação que alimentava tanto os filmes conformistas como os de resistência. Manuel de Guimarães foi o mais sacrificado dos autores, mas muitos outros filmes foram vitimados pela tesoura da censura.

É peculiar a situação do movimento neo-realista que no cinema português tem como único representante Manuel Guimarães. Nas suas sete longas-metragens, Manuel Guimarães revela-se um autor de grande coerência estética, o único que nos anos 50 intentou criar um cinema de resistência, neo-realista dentro de um estilo clássico. Defendo assim que o cinema neo-realista português é um movimento composto de um só cultor, apesar de alguma historiografia lhe negar esse lugar, ora referindo a inexistência de neo-realismo em Portugal, ora englobando nessa categoria filmes de outros realizadores que descaracterizam o tal movimento que se diz que não houve...

Tais contradições obrigaram-me a rever as atribuições de categoria, bem como as oscilações do gosto que as moldaram; de que resultam uma breve revisão da crítica e uma redefinição do neo-realismo (nas suas variantes), para defender a inclusão de Guimarães nesta corrente estética. Assim, considero que as afinidades de Guimarães são sobretudo com o movimento literário português. E que o seu neo-realismo “classicista” não pode ser comparado com o neo-realismo cinematográfico italiano, dadas as circunstâncias sociais e políticas completamente diversas dos dois países. 

[topo]
Paulo Cunha - Radicalismo e experimentalismo no Novo Cinema Português 1967-1974 

Palavras-chave: Novo Cinema Português; Público; Experimentalismo; Radicalismo; 

Abstract: À semelhança do que acontecera anos antes com a 'nouvelle vague' francesa, que reuniu o consenso da crítica de cinema e o agrado do público francês e internacional, a geração que promoveu o designado novo cinema português tentou, numa primeira fase, conquistar o público sem prescindir da qualidade estética das suas propostas.

O fracasso comercial dos filmes das Produções António da Cunha Telles (1962-1967) marcou de forma irremediável o relacionamento da nova geração de cineastas dos anos 60 com o público de cinema português. A partir de 1967, sobretudo depois do ponto de situação traçado durante a Semana de Estudos do Novo Cinema Português (org. Cineclube do Porto),

diversos realizadores do novo cinema português enveredaram pelo radicalismo estético em obras como Nojo aos Cães (António de Macedo, 1970), Uma Abelha na Chuva (Fernando Lopes, 1972), A Sagrada Família (João César Monteiro, 1972) ou Pousada das Chagas (Paulo Rocha, 1972).

A independência proporcionada pelo apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian à cooperativa de produção Centro Português de Cinema permitiu aos jovens cineastas radicalizar as suas propostas e a redefinir as suas relações com o público português e com certos circuitos cinéfilos internacionais.

O objectivo desta apresentação será  analisar essas propostas de radicalidade estética ou formal em simultâneo com a evolução do relacionamento do novo cinema português com o público e com o mecenato privado entre 1967 e 1974. 

[topo]
António Valente - A invisibilidade do cinema português produzido sem apoio estatal

Palavras-chave: apoios cinema independente português produção 

Abstract: A entrada em vigor da nova Lei do Cinema (42/2004) instituiu um conjunto de normas regularizadoras de apoios à produção, distribuição e exibição do cinema que rapidamente deixaram transparecer uma clara opção pelo maior controlo da produção cinematográfica e audiovisual portuguesa.

Na sequência da sua publicação, todo um conjunto de Decretos-Lei e sobretudo Regulamentos diversos vieram clarificar e aguçar a preocupação que já surgia da Lei Geral.

Os apoios estatais na cadeia do cinema são sequenciais e sobretudo discriminatórios do cinema igualmente português mas produzido sem os referidos apoios.

Na recente Assembleia-Geral da FPCC - Federação Portuguesa de Cineclubes, constatou-se a impossibilidade de exibir produções nacionais independentes, ao abrigo das projecções cinematográficas incluídas no Programa REDE. Considerando que estas são na prática a totalidade das exibições dos cineclubes, esta discriminação instituída pelo programa de apoio do ICA/Ministério da Cultura inviabiliza a possibilidade de mostrar uma parte da produção do cinema nacional.

No crescimento da cadeia após a exibição, os apoios à distribuição são, também eles, diferenciados entre os filmes que tiveram apoio à produção e os restantes. Os restantes têm, no contexto dos apoios disponíveis, o mesmo valor que um qualquer filme europeu. Agravando esta situação, estes filmes só têm acesso se integrarem um grupo de, pelo menos, 5 filmes, que serão avaliados no seu conjunto

Também a divulgação do cinema português (uma das prerrogativas dos objectivos do ICA), tem tido reflexos desta política geral. No “Catálogo de Cinema Português” publicado anualmente e normalmente divulgado a tempo de ser distribuído no Festival de Cannes, a prática tem sido de apenas incluir obras apoiadas ou produzidas por empresas inscritas no registo específico deste Instituto. Também só estas empresas têm acesso aos apoios à participação em festivais.

Concluindo o círculo, só é  visível o cinema produzido pelas empresas registadas e só as produções apoiadas são mais visíveis.

A constituição do registo de empresa afunilou o conjunto de entidades passíveis de produzir obra nacional, vedando o acesso á produção possível, nomeadamente às associações e às cooperativas.

Com esta medida, todas as eventuais obras produzidas por cooperativas, cineclubes, associações diversas e pessoas em nome individual correm o sério risco de não terem como ser exibidas, constituírem parte de um património e participarem nos registos e na estatística da produção nacional.

Com este contexto, está criado um vazio e sequencialmente uma indefinição para o termo “cinema independente”. Portugal arrisca-se assim a ter um “cinema independente”, cuja terminologia se afasta de um contexto comercial e que surge por imposição legal.

Considerando a revolução em curso de acesso fácil aos meios de produção e à ampla oferta/escolha de formação na área, este contexto arrisca-se a uma assincronia no cavalgar dos tempos e a um passível processo de controlo, gerador de inesperada asfixia de um certo cinema português, a que agora provavelmente poderemos chamar, com propriedade, “cinema independente”. 

[topo]
Daniel Ribas - Nova Geração? a geração curtas chega às longas 

Palavras-chave: cinema português; geração curtas; estética; condições de produção. 

Abstract: No final dos anos 90, em virtude de diferentes condicionantes políticas e produtivas, o cinema português viveu um momento de particular fulgor nas curtas-metragens. No ano 2000, o Festival de Curtas-Metragens de Vila do Conde, parte importante deste processo, publicou um estudo sobre o assunto, colocando em ênfase a expressão do crítico Augusto M. Seabra, que meses antes escrevera no Público sobre umas possíveis “Gerações Curtas” (haverá mesmo, nesse ano, uma retrospectiva com esse nome que circulará pelo país). Beneficiando de condições políticas e económicas ideais (o reforço e a diversificação dos subsídios do ICAM), o cinema português assistiu, nesses tempos, a uma constituição de novas estruturas de produção. Foi dessa explosão na curta-metragem, mas também no dinamismo do mercado publicitário, que nasceu esta possível nova geração do cinema português. 

Esta comunicação pretende, por isso, fazer uma leitura transversal desta história, convocando para a discussão as primeiras obras em longa-metragem de alguns desses autores: Marco Martins (Alice), Tiago Guedes/Frederico Serra (Coisa Ruim e Entre os Dedos), Miguel Gomes (A Cara Que Mereces e Aquele Querido Mês de Agosto), Sandro Aguilar (A Zona), António Ferreira (Esquece Tudo o Que Te Disse), João Pedro Rodrigues (O Fantasma e Odete) ou Raquel Freire (Rasganço e Veneno Cura), entre outros. Na diversidade evidente deste movimento, tentaremos perceber quais as possíveis características comuns – traçando também as necessárias oposições –, ao nível das condições de produção e das propostas estéticas. 

Como hipótese tentaremos perceber se haverá uma possível afirmação de geração e se se confirma aquilo que Seabra já notara nesse final de século: “Um dos dados mais interessantes da proliferação de curtas metragens nos últimos anos é o facto de ocorrer exteriormente à reiteração de uma (...) ‘diferença portuguesa’.” (Augusto M. Seabra in Geração Curtas – 10 Anos de Curtas Metragens Portuguesas). 

[topo]
Ana Soares - O cinema de Pedro Sena Nunes

Palavras-chave: Documentário português 

Abstract: A Morte do Cinema é o título de um dos filmes documentais de Pedro Sena Nunes. Refere-se ao desaparecimento de um lugar e uma experiência, a do visionamento clandestino de filmes, numa garagem particular em Aveiro. Mas, além dessa leitura, a expressão do título remete da mesma maneira para uma interpretação figurativa que entenda o cinema num sentido lato e o seu desaparecimento como processo iminente e constante. Esta morte latente do cinema, porém, parece garantir, na obra de Sena Nunes, a sobrevivência e a vitalidade do meio artístico. Desde uma das suas obras iniciais, Margens, até ao mais recente Elogio ao 1/2, os filmes de Sena Nunes permitem uma abordagem do cinema como fio de ligação numa história da cinematografia portuguesa ou, tão simplesmente, de uma cinematografia. 

[topo]
 
2017 © Cinema Português • Todos os direitos reservados.
Google+ Publisher account
LabCom - Laboratório de Comunicação e Conteúdos Online  •  UBI - Universidade da Beira Interior